| Argemiro Pertence | |||||||||||||||||
| 15-Out-2008 | |||||||||||||||||
Neste momento de crise, em que ninguém ainda tem uma noção exata de para onde ela nos vai conduzir, cabe mais um pouco de reflexão acerca da produção, uso e custos da energia. A matriz energética global está baseada, desde a Revolução Industrial do século XVIII, em fontes de energia de origem fóssil (petróleo, carvão mineral e gás natural). Nestes mais de dois séculos, muito pouca coisa mudou em termos qualitativos, ao passo que em termos quantitativos, os volumes demandados sofreram estrondoso crescimento. Com efeito, mais de 80% da energia que o mundo consome atualmente é de origem fóssil (ver tabela a seguir).
De fato, a sociedade atual, em especial a do chamado Primeiro Mundo – EUA, Europa Ocidental e Japão – habituaram-se a um nível de consumo energético incompatível com o espaço em que vivem. Assim é que, de uns tempos para cá, tornou-se rotina que indústrias dos países centrais, intensivamente consumidoras de energia, transferissem suas unidades mais poluidoras – siderúrgicas, químicas e petroquímicas - para países periféricos, onde as restrições ambientais são ainda bastante frouxas. Curiosamente, os países que recebem esse tipo de investimento ficam felizes da vida com o que acreditam ser um gesto de boa-vontade dos investidores ricos do norte desenvolvido. Aproveitando-se do clima de festa que a inauguração de uma dessas plantas traz, os políticos populistas das sociedades mais atrasadas declaram-se responsáveis pelo progresso que este fato trará à região. A conseqüência desta migração é que, em breve, grandes áreas dos países mais pobres vão usufruir de um modelo híbrido e perverso: degradação ambiental e empobrecimento. A pobreza será decorrente da lógica do modelo econômico que rege este fenômeno, a saber: 1. Os lucros do negócio são remetidos para os países de origem das empresas; 2. Os países-anfitriões concedem generosos benefícios tributários para a atração dessas empresas e; 3. A geração de empregos, embora real, limita-se à mão-de-obra de baixa qualificação e remuneração, a fim de viabilizar a rentabilidade do negócio. Em resumo, as três vias que poderiam gerar algum benefício para os países mais pobres neste processo simplesmente não existem ou são bastante minimizadas – reinvestimento de lucros, pagamento de tributos e salários. Enquanto viver o capitalismo, dificilmente esta lógica vai ser alterada. A questão posta é que, nos países periféricos, políticos de pouca envergadura usam um discurso sem nexo e sem sustentação na realidade. É comum ouvi-los pregando aos quatro ventos que nossos países vão alcançar um padrão de consumo de energia similar ao dos EUA, Europa e Japão. Isto é inviável nos moldes vigentes. Nosso planeta é finito e não suportaria tamanha agressão. Cabe propor alternativas e onde ainda existe espaço de manobra para as sociedades mais desfavorecidas é a sua matriz energética. Países como a China, a Índia, Brasil, Egito, México e outros devem usar sua criatividade para conter a crescente agressão ao meio-ambiente. O desenvolvimento de outras fontes de energia e o aumento da eficiência energética das máquinas e equipamentos precisam ser enfrentados com vontade e seriedade. Já chegou até mesmo a hora de começarmos a planejar uma sociedade menos consumidora de energia, menos comodista e, portanto, e mais saudável. | |||||||||||||||||
domingo, 19 de outubro de 2008
Algumas distorções da matriz energética mundial
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Petróleo – a busca do equilíbrio
Argemiro Pertence
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Bolívia, o país que quer existir
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segunda-feira, 25 de agosto de 2008
A monotonia da civilização do dinheiro
Argemiro Pertence 21 de agosto de 2008
Nada mais cansativo que viver a história de um tempo em que os mesmos fatos se repetem com uma freqüência irritante. Acabamos de assistir a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, sob o pretexto de apreender de armas de destruição em massa e combate ao terrorismo. Sabemos todos hoje que nada disto é verdadeiro. A invasão ao Iraque deu-se por conta da necessidade, por parte dos EUA, de ter controle sobre as imensas reservas de petróleo disponíveis naquele país, bem como ameaçar o vizinho Irã, por sua recusa em se alinhar com o Ocidente, sendo este também, por coincidência, dono de reservas petrolíferas consideráveis.
O panorama do Oriente Médio, afora a invasão, é também monótono. A região que produz 25% do petróleo consumido no mundo prima pela existência de pseudo-estados, dirigidos por pseudo-governos e habitado por pseudo-cidadãos. A Arábia Saudita, os Emirados e o Kuwait transbordam em bilhões e bilhões de euros e dólares esbanjados por elites e realezas passivas ante os interesses das corporações globais do petróleo, totalmente sem compromisso com suas sociedades que vagam pelos areais das margens do Golfo Pérsico recolhendo migalhas que sobram dos banquetes monárquicos.
Não bastasse o tumulto causado ao povo iraquiano, os EUA prosseguem em sua monótona caminhada belicista na região. Após o desmembramento da União Soviética, nos anos 90 do século passado, ampliou-se bastante a atividade de proselitismo capitalista dos norte-americanos dirigida a países recém-formados, especialmente na região do Mar Cáspio. Uma das presas fáceis desta atividade foi a Geórgia, ex-república soviética, carente de infra-estrutura e politicamente frágil naquele momento.
Ocorre que a região em torno do Mar Cáspio foi também brindada com uma das mais formidáveis reservas de hidrocarbonetos do planeta. Sob suas águas – por vezes ultra-profundas, estima-se que haja em torno de 160 bilhões de barris a serem extraídos, o
suficiente para um longo período de prosperidade e muito mais do que o
necessário para reorganizar a dinâmica da geopolítica global.
Pois foi justamente nesta região que os EUA se envolveram, agora de forma mais evidente, ao armar, treinar e financiar as forças armadas georgianas e incentivar seu governo para um ataque à sua ex-província, a Ossétia do Sul, cuja autonomia em relação à Geórgia foi declarada em 1991, embora jamais reconhecida por esta.
Porém, que importância tem a Ossétia do Sul em todo este imbroglio? Em função da posição geográfica do Cáspio e de suas áreas produtoras, toda a produção dali deve escoar por dutos terrestres até algum porto marítimo de onde então seguiria para os mercados que o demandam. Uma das rotas mais viáveis, que já está projetada, é a que liga a região de Baku, no Azerbaijão até o porto de Ceihan, na Turquia – à beira do Mediterrâneo - é a que passa pela Ossétia do Sul e pela Geórgia. O controle da Ossétia do Sul pela Geórgia, apoiada pelos EUA, soou aos ouvidos dos dirigentes do Kremlin como uma provocação. Seria demais para os russos terem nas suas barbas a presença de títeres dos EUA dando as cartas sobre a exportação de petróleo do Cáspio e das regiões meridionais da própria Rússia para a Europa Ocidental.
Como os russos aceitam tacitamente o controle norte-americano no Golfo Pérsico, eles decidiram que não aceitariam algo similar junto à sua fronteira.
E a história se repete monotonamente...
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Energia e injustiça
| Argemiro Pertence | |
| 30-Jul-2008 | |
| A energia representa um dos fundamentos do Universo. Apesar de os físicos ainda desconhecerem seu processo de formação e estarem até hoje limitados às teorias pra explicar sua origem, um fato é incontestável: a formação do Universo envolveu a liberação de fantásticas quantidades de energia criadora, processo este que ainda se encontra em pleno andamento. Nosso minúsculo sistema solar depende em muito da energia térmica e luminosa liberada por sua estrela central – o Sol – para a manutenção da vida e do meio ambiente em que vivemos. Fato relevante é que a energia solar é distribuída livremente a todos os recantos do sistema, respeitadas, evidentemente, as leis físicas. O intervalo de temperaturas prevalecente em nosso planeta, fruto da radiação solar incidente, é exatamente aquele que favorece as formas de vida que aqui existem. Afora isto, a energia solar tem hoje muito mais aplicações, como conseqüência do desenvolvimento tecnológico da humanidade. Em sua definição mais simples, energia é o equivalente físico de trabalho. Desde a descoberta do fogo, como forma de geração de energia na pré-história, passando pelas ineficientes máquinas a vapor da Revolução Industrial, até os modernos reatores nucleares, a produção de trabalho tem sido o objetivo. A produção de energia para o acionamento de máquinas visou a execução de trabalho anteriormente executado pelo braço humano ou pela força animal. Esta mudança resultou no aumento da eficiência do trabalho e na liberação gradual do homem do trabalho braçal para que este se dedicasse, cada vez mais, ao trabalho intelectual criativo, trabalho este que propiciou a evolução da humanidade, estabelecendo-se, em razão disto, um círculo virtuoso de criatividade e progresso. Com o passar do tempo e especialmente nos últimos dois séculos, entretanto, o uso de energia assumiu aspectos menos nobres. Com o advento do carvão mineral e, mais tarde, do petróleo e do gás natural, cresceu a concentração do controle das fontes de energia disponíveis e este domínio resultou no surgimento de conflitos, disputas e na exploração dos mais fracos. Hoje, cerca de 40% da energia em escala global vem do petróleo e do gás natural, cujas fontes estão como nunca concentradas, tanto em termos geográficos como em termos de sua propriedade. O número de gigantescas corporações estatais e públicas que controlam mais de 90% da produção de petróleo e gás não ultrapassa uma dúzia. Não se deve, portanto, estranhar o absurdo nível de especulação que envolve os preços dessas “commodities”. Apesar deste quadro, não há no horizonte qualquer vislumbre de alteração. As sociedades mais ricas sequer admitem rever seus padrões de consumo de petróleo objetivando reduzir sua demanda e, em consequência, seu preço, bem como diminuir o crescente impacto nocivo da queima de derivados de petróleo sobre a Natureza. Por mais incrível que possa parecer, milhões de cidadãos norte-americanos têm por hábito ir à esquina de sua casa, comprar uma Aspirina ou uma Coca-Cola, ao volante de seus carrões, dotados de motores altamente ineficientes e não imagina viver sem esse tipo de “conforto”. Ao lado disto e no mesmo mundo, bilhões de cidadãos asiáticos, africanos e latino-americanos não dispõem de energia nem de recursos para comprá-la para irrigar suas lavouras de subsistência. Em resumo, apesar de tudo, vale aqui lembrar que “o sol não nasce para todos”. |
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Desdobramentos de insensatez
Argemiro Pertence 03/07/2008
O governo britânico acaba de convocar as empresas de petróleo para discutir a possibilidade de aumentar a produção no Mar do Norte visando conter a alta do barril. No mesmo dia, o preço do barril alcançou o recorde histórico de US$ 140. Está aí uma das razões que justificam o repentino apoio governamental à British Petroleum (BP) para participar da rodada de licitações a ter lugar no Iraque em breve. Além desta novidade, o governo britânico já deixou claro que vai tomar posse de cerca de 900 mil km2 no mar da Antártida para assegurar a exploração do petróleo que lá possa existir.
Porém, cabe a indagação: existe petróleo para continuar tocando as coisas me frente? A respeitada Agência Internacional de Energia prevê uma séria crise para daqui a 5 anos, forçando os preços ainda mais para cima e agravando a dependência do Ocidente dos países da OPEP..
As implicações geopolíticas da crise prevista para 2013 são imensas. O risco de novas intervenções militares no Oriente Médio é claramente elevado. As reservas provadas de petróleo são hoje de cerca de 1,3 trilhão de barris. Metade dos países produtores registrou queda na produção em 2006. A produção fora dos países da OPEP deverá alcançar seu pico e começar a declinar inexoravelmente. Esta queda deve ser debitada à crescente demanda da China e dos EUA, ao lado da queda de exportação do Iraque.
Há, evidentemente, saídas para este nó, só que nenhuma delas é digna de crédito. Embora tenham sido gastos bilhões na exploração de novas áreas, as grandes descobertas atingiram seu pico nos anos 60 do século passado. Para a frente, estão as areias betuminosas do Canadá, os petróleos ultra-pesados da região do Orenoco (Venezuela), as jazidas de xisto betuminoso e as reservas recém-descobertas em águas ultra-profundas no mar territorial brasileiro. Em todos esses casos há uma variável que foge a todo controle: o pequeno ganho líquido de energia, ou seja, a pequena diferença entre a energia obtida com a exploração dessas fontes e a energia gasta para sua extração, além do cada vez mais antipático efeito-estufa causado pela combustão desses materiais.
Todavia, mesmo que continuem existindo restrições no fornecimento em função da explosão de consumo chinesa especial e coincidentemente com a queda de produção dos não-membros da OPEP a crise que ser avizinha pode ser em muito amenizada se adotadas algumas medidas saneadoras do desperdício. É fato comprovado que metade da energia gerada no mundo de hoje é desperdiçada, que os automóveis mais modernos têm em seu motor um rendimento que mal supera os 20%, que os fogões domésticos jogam fora mais de 70% do calor produzido e que as termelétricas desperdiçam mais de 60% da energia que lhes é fornecida.
A questão, entretanto, é: que melhorias podem ser introduzidas na matriz global, na quantidade e no tempo necessários, para empurrar a crise mais para a frente? O que é mais inexplicável é que os grandes consumidores de petróleo não demonstram qualquer intenção de migrar de alguma forma para a energia renovável e permanecem lutando pelas reservas de petróleo cada vez mais limitadas?
Não bastasse a maciça presença de interesses dos EUA no Oriente Médio, por causa do petróleo, atualmente até a África Ocidental, detentora de modestos 66 bilhões de barris de reservas provadas, tornou-se palco de disputas. O simples fato de Angola ser o principal fornecedor de petróleo para a China fez soar o alarme dos vigias do G-7.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
A Petrobrás e os rufiões
O diário francês “Le Monde”, em sua edição de 11 de junho deste ano, publicou um editorial com o título “La revanche du Sud” (A revanche do sul) onde aponta para algumas alterações no atual cenário mundial globalizado. O chamado “Sul”, na linguagem de hoje, não se refere necessariamente aos países do hemisfério sul, mas aos países excluídos do chamado G-7, composto pelos EUA, os ricos países europeus e o Japão. No “Sul” estão incluídas, inclusive, a Rússia, a China e a Índia
Pois o “Le Monde” aponta, não sem um certo ar de lamúria que, enquanto a China, a Índia e o Brasil vão crescer, em
Empresas e fundos soberanos do sul estão se apropriando de grande parte do controle de empresas do Norte rico. Informa o “Le Monde” que, segundo dados do FMI os países do Sul investiram, algo como 1 trilhão de dólares nos mercados do Norte no ano passado. A título de exemplo, fundos estatais chineses detêm hoje parcela significativa do capital de dos dois dos maiores grupos financeiros dos EUA - o Citigroup e o Morgan Stanley.
É justamente neste contexto que cabe fazer uma avaliação do desempenho da Petrobrás, a maior empresa brasileira e uma das atuais gigantes do petróleo em âmbito global. É verdade que, aproveitando-se de sua atual alta rentabilidade em seus negócios, a Petrobrás tem investido no exterior, particularmente na América Latina, mas mui timidamente no Norte. Em contrapartida, assusta-nos a profusão de parcerias que a empresa vem aceitando nos seus negócios domésticos, especialmente no segmento de exploração e produção no mar.
Uma empresa séria procura parceiros, basicamente, por três razões: carência de capital ou de tecnologia e excesso de risco. A Petrobrás não se enquadra em nenhum dos três casos. Capital não é problema. Os lucros da empresa, nos últimos 10 anos têm sido astronômicos. Em relação à tecnologia, a Petrobrás, em seu campo, é líder mundial há décadas no desenvolvimento e domínio de tecnologias para exploração e produção em águas profundas e parte agora para mais um salto tecnológico ao descobrir áreas muito promissoras abaixo da camada de sal, na plataforma continental brasileira, em águas ultra-profundas. Quanto ao risco do negócio, a situação é idêntica. A Petrobrás foi progressivamente criando “expertise” e hoje suas chances de sucesso nesta nova fase são consideráveis.
Ainda assim, nas novas descobertas ocorridas, especialmente na Bacia de Santos, tomamos conhecimento que há parceiros do Norte que irão usufruir dos bônus que a parceria com a Petrobrás lhes confere. No caso da exploração e produção de petróleo e gás no mar brasileiro, a regra do jogo vigente é clara em ensinar que empresas na situação da Petrobrás deveriam dispensar taxativamente qualquer oferta de parceria. No entanto, a Petrobrás as tem. Durma-se com um barulho desses!
Esta análise simples demonstra que há algo de muito mal explicado na empresa. Entretanto, esta semana, mais uma vez, seu presidente foi a Nova York explicar os investidores do Norte como andam os negócios da empresa e informá-los quanto eles vão ganhar com isto.
Há algo de podre no reino da Dinamarca....
