segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O que foi feito do “Mensalão do PSDB”?

Não se trata de querer livrar membros importantes do então governo Lula do ônus pela acusação, apuração e julgamento da existência do chamado “Mensalão”. Há sérios indícios de que o citado esquema existiu de fato e todos os cidadãos de bem deste país aguardam a ação da Justiça e a consequente punição dos responsáveis.

A antológica lentidão do Poder Judiciário não combina com o fato de que este processo tenha chegado à atual etapa, a do julgamento, antes da prescrição. É louvável que num país onde a velocidade de ação do Poder Judiciário é inversamente proporcional ao poder e à fortuna dos acusados estejamos assitindo ao que está se passando perante nossos olhos.

Coube ao Procurador-Geral da República a acusação dos réus, conforme determinam as regras. Dezenas de advogados bem pagos ocupam-se em defender seus clientes acusados. Este é um outro dado a ser averiguado: quanto cada advogado de defesa está cobrando e quem está pagando os advogados de cada um dos réus.

Neste ponto, vem-me à memória um outro tema similar a este e que foi devidamente engavetado. Trata-se do escândalo da compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1997, apenas um ano antes da eleição de seu substituto. Curiosamente, apesar de público, este escândalo não foi investigado nem houve qualquer ação da Procudoria-Geral da República a seu respeito, o que levou à sua prescrição.

O escândalo da compra de votos para a emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso – o chamado “Mensalão do PSDB” -  foi deflagrado por denúncia do jornal Folha de São Paulo que publicou, em sua edição de 14 de abril de 1997, uma denúncia da CNBB que acusava o governo de FHC de corrupção, quatro meses após a aprovação da reeleição. A emenda foi aprovada na Câmara dos Deputados, em primeiro turno, com 336 votos favoráveis e seis votos contra.

Em 13 de maio de 1997, em outra matéria, o mesmo jornal, relatou uma conversa sobre a compra desses votos. O personagem central, o então deputado Ronivon Santiago (do então PFL do Acre) informava ter vendido seu voto por R$ 200 mil, a favor da emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Nesta reportagem, Ronivon afirmou que recebeu R$ 100 mil em dinheiro e que os outros R$ 100 mil seriam pagos por uma empreiteira que tinha dinheiro a receber do governo de seu estado, o Acre.

Os compradores do voto do deputado do Acre, segundo ele, foram dois governadores: Orleir Cameli (sem partido), do Acre, e Amazonino Mendes (também do então PFL), do Amazonas. O esquema de compra de votos para a reeleição envolveu outros deputados, além de Ronivon.

Além dos governadores já citados, também foram acusados de participação na compra de votos deputados influentes do Congresso como o então presidente da Câmara, Luiz Eduardo Magalhães (já falecido, filho do senador Antônio Carlos Magalhães, também falecido, presidente do Senado à época), e de ministros do governo Fernando Henrique. Pelas conversas gravadas, o esquema teria sido comandado pelo então ministro das Comunicações, Sérgio Motta (já falecido), o popular “Serjão”, que era considerado o homem forte do governo FHC.

A diferença de tratamento de dois escândalos do mesmo calibre não se justifica em sociedades realmente avançadas. Nossas instituições estão nos devendo por sua omissão neste caso.

O principal beneficiário da emenda da reeleição fez, em seu segundo mandato, nada mais do que continuar a aplicar ao Brasil o modelo político-econômico viciado engendrado por Thatcher e Reagan que, em seu limite, levou à atual crise do capitalismo.  O ex-presidente tucano prossegue em desfile vaidoso mundo afora a fazer palestras e a ensinar sobre o Brasil. Sua alcunha de “príncipe dos sociólogos” só faz aviltar a Sociologia.

São esses e outros fatos que ainda fazem do nosso país algo periférico. São esses e outros fatos que fazem de nossa terra algo submisso a pequenos interesses. São esses e outros fatos que me proíbem de cantar o Hino Nacional, tal o descompasso entre seus versos e a nossa realidade.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Patriotismo desafinado e inútil

A presença em nossa Amazônia de alguns minerais raros e de importante demanda despertou alguns dos chamados patriotas de sua prosaica letargia.

Poucas linhas de nosso exaltado e romântico hino nacional se aplicam ao nosso país. Entretanto, uma delas cai como uma luva sobre os brasileiros e sua terra. É clara a semelhança entre o “deitado eternamente em berço esplêndido” e a realidade vivida por brasileiros e brasileiras.

Atualmente, grupos de patriotas têm usado a Internet para questionar a existência de reservas indígenas em áreas ricas em recursos minerais. Levantam esses patriotas até mesmo a possibilidade de esses grupos indígenas se tornarem nações autônomas e independentes do poder centralizado em Brasília, de acordo com os princípios da Declaração Universal sobre os Direitos dos Povos Indígenas, aprovada em 2007 pela ONU.
Esses patriotas fingem desconhecer que a Declaração é, em primeiro lugar, um instrumento não vinculante para os países, ou seja, ela é uma declaração de princípios, aspirações e não de compromissos políticos que os países signatários devem buscar implantar.

A obrigatoriedade é muito relativa quando se trata de instrumento aceito de forma voluntária. Nenhum país é obrigado a aceitá-la. Portanto, conclui-se que pode haver a vontade e a disposição de determinado país no sentido de implantar a Declaração ainda que não exista obrigatoriedade legal de sua aplicação.

Além disso, os representantes indígenas declararam sempre de forma transparente que os povos indígenas não pretendem constituir estados independentes, o que é o grande temor dos estados nacionais.

Não se trata, portanto, de defender a tese da autonomia de grupos indígenas, mas o que faria o Brasil com, por exemplo, uma reserva de nióbio sob seu controle? Que tipo de pesquisa e que tecnologia foram desenvolvidos para a utilização desse metal raro? A resposta é: o Brasil nada fez até hoje.

Dispor de reservas de nióbio e outros metais estratégicos no subsolo não tem qualquer valor, a menos que se tenha meios para utilizá-los. Em países mais sérios que o nosso, esses metais já estão em uso há anos e pesquisas estão permanentemente sendo feitas em universidades, centros de pesquisa e empresas para descobrir, desenvolver e aperfeiçoar aplicações para esses metais. O mercado brasileiro é, inclusive, cliente de empresas que fabricam e exportam produtos de alto valor agregado que utilizam esses metais.

Uma das grandes empresas brasileiras em uso de tecnologia – a Embraer – importa os propulsores e toda a eletrônica de controle dos aviões que produz, ficando sob sua responsabilidade apenas a montagem da “casca” das aeronaves.

Para encerrar, é preciso que fique bem claro: o Brasil, seus governos e sua sociedade têm sido inteiramente omissos em cuidar de seus recursos minerais, suas fronteiras, seus rios e mares. Além disso, nosso país jamais teve um programa sério para desenvolvimento de pesquisa e tecnologia (exceto o da Petrobras). O Brasil, em pleno século 21, não passa de um exportador de commodities e um importador de produtos industrializados com alto valor agregado e de tecnologia.

Portanto, soa completamente desafinada a gritaria de grupos de patriotas contra pequenos grupos de indígenas sobreviventes do genocídio de que foram vítimas seus antepassados. Seu patriotismo deveria ser reavaliado e redirecionado para os verdadeiros culpados pelo quadro atual.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

De novo as reservas indígenas no Brasil

Algumas mentes pouco arejadas insistem na solução de que é necessário roubar ainda mais terras dos índios do que já foram roubadas nesses últimos 500 anos. Justificam mais este assalto pela existência de importantes reservas de metais estratégicos nas atuais reservas indígenas. Para que queremos metais estratégicos se não investimos em pesquisa e tecnologia para aplicá-los? Para que queremos metais estratégicos se todos os bens que empregam esses metais em sua produção são até hoje importados pelo Brasil?

Ora, ninguém se incomodou quando o "branco" Eliezer Batista controlou pessoalmente, através de empresas estatais sob seu comando, durante os 21 anos de ditadura militar, todo o minério de ferro de Minas Gerais e todo o minério de manganês do Amapá, deixando enorme herança para seu filho Eike, hoje, coincidentemente, o homem mais rico do país. Eliezer pode, os índios, donos da terra há milênios, não podem! A mente pouco arejada dessa gente os conduz ainda a essa uma brutal falta coerência.

Hoje quem explora o ferro em Minas Gerais é a Vale, empresa privatizada em 1998, no governo Fernando Henrique, por R$ 3,3 bilhões, valor que correspondia, à época, a somente 25% do lucro da empresa no mesmo ano - R$ 12,5 bilhões. Pode parecer brincadeira, mas não é.

Sem me ater a decisões políticas ou jurídicas, prefiro ir à lógica.

Instalados nestas terras há milênios, os indígenas veem, de repente, seu espaço ser invadido - o termo é este mesmo: invadido, embora o termo oficial seja “descoberto” - por europeus que os agridem, infestam-nos com doenças mortais para eles e expulsam-nos de suas casas.
Se hoje são apenas 600 mil índios, a causa desta redução está, principalmente, no genocídio praticado por europeus contra eles e, em menor parte pela miscigenação com brancos e negros. O reduzido número de indígenas não é culpa deles. Por favor, não podemos inverter os fatos. O reduzido número de indígenas é resultado da ilegal, desleal, desumana e estúpida atuação do branco europeu de quem boa parte dos brasileiros ainda é descendente.

A chamada civilização ocidental baseia-se no direito de propriedade desde priscas eras. No entanto, esse direito foi roubado aos nossos índios, como foi roubado também aos primeiros habitantes de nossa sofrida América Latina (em especial aos maias, astecas e incas) e aos "peles-vermelhas" da América do Norte.

Pelo genocídio praticado contra os peles-vermelhas na até hoje violenta América do Norte nasceram heróis nacionais como Buffalo Bill e o general George A. Custer. Os de cá receberam o apelido de "bandeirantes" e muitos de nós aprendemos seus nomes nas escolas, sendo também citados como heróis. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

O  que está havendo no "civilizado" Brasil não passa de um golpe contra uma minoria. Nossos índios merecem um pedido formal de desculpas que eles aceitariam se quisessem. A usurpação de que foram vítimas permanece incólume

O tempo não pode apagar crimes destas dimensões. Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler, Augusto Pinochet, o presidente Harry S. Truman que ordenou o lançamento de duas bombas atômicas sobre o povo do Japão já derrotado e rendido, dentre muitos outros jamais serão apagados da História.

E chega de inversão dos fatos!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O HSBC de volta ao ninho

Não é a primeira vez que o HSBC está envolvido com o tráfico de drogas. O HSBC (Hongkong Shanghai Bank Corporation) foi fundado há cerca de 150 anos para lidar com o dinheiro resultante do tráfico de ópio da Índia, então uma colônia do Império Britânico, para a China. Como colônia, a Índia e seu imenso mercado interno estavam abertos à importação de produtos europeus, ao passo que a China, pelo contrário, era muito resistente à compra desses produtos, estando mais interessada em vender seus produtos a esses países.

 A China era uma grande produtora de seda, porcelana e chá, que era o produto que despertava maior interesse nos britânicos. Somente em 1720 eles compraram cerca de 12.700 toneladas de chá dos chineses e em 1830 compraram cerca de 360 mil toneladas. Os chineses, todavia, não tinham interesse algum nos produtos europeus, o que resultava em desequilíbrio da balança de negócios e lucros muito pequenos para os britânicos. Apenas um produto despertava grande interesse neles e por muitas vezes era ele que fazia com que o comércio com a China produzisse algum lucro. Esse produto era o ópio.

O ópio é uma substância entorpecente extraída da papoula que causa forte dependência química em seus usuários. A droga era transportada ilegalmente pelos britânicos da Índia para a China e lá, muitas vezes, os britânicos se encarregavam de induzir os chineses a consumi-lo, o que provocava dependência, obtendo assim um aumento de seu lucro e no volume do comércio.

Em vista desse quadro, o governo chinês proíbiu toda a transação com a droga o que fez com que os britânicos ficassem irritadíssimos, já que este era o comércio que estava dando lucro, terminando por declarar guerra à China em 1839.
No mesmo ano, um súdito chinês foi assassinado por marinheiros britânicos, fato que fez o Comissário Imperial ordenar a expulsão de todos os cidadãos britânicos que estavam na cidade e confiscar cerca de 20 mil caixas de ópio que foram ali encontradas. Em 1840, o Chanceler Britânico, Lord Palmerston, enviou uma frota de 16 navios de guerra para o litoral chinês, fato que resultou no afundamento de boa parte dos navios chineses, além do estado de sitio de Guangzhou e o bombardeamento da cidade de Nanquim.

Esse conflito durou até 1842 quando foi assinado o Tratado de Nanquim, o primeiro dos chamados “Tratados Desiguais”, pelo qual a China aceitou suprir tudo o que a Grã-Bretanha quisesse, abrindo cinco portos ao comércio britânico, pagar uma grande indenização de guerra e entregar a ilha de Hong Kong, que ficaria sob domínio britânico por 100 anos.

Nasce o HSBC
Em 1856, tem início o que chamamos de “Segunda Guerra do Ópio”. Oficiais chineses abordaram e revistaram o navio Arrow, de bandeira britânica. Isso desagradou muito os britânicos que dessa vez se aliaram à França e executaram um violento ataque militar à China em1857. O governante chinês nesse momento dá continuidade à sua política de intransigência, recusando-se a respeitar os atos dos britânicos. Mais uma vez a China sai derrotada. Dessa vez, onze portos chineses seriam abertos ao comércio com o ocidente. O governante chinês tentou resistir, mas com isso a capital Pequim foi ocupada, forçando-o a aceitar o Tratado de Tianjin que determinava a abertura dos portos chineses aos estrangeiros, incluindo diplomatas estrangeiros e missionários cristãos além, é claro, da legalização da venda e do consumo de ópio.

Foi justamente nesse cenário que foi fundado o HSBC, no sul da China, para lidar com as fortunas que surgiam do comércio britânico-chinês, inclusive o do ópio.
Portanto, não há o que estranhar quando a imprensa noticia que o HSBC de hoje teve vultosas transações financeiras com os cartéis do tráfico de drogas mexicanos. Foi o tráfico de drogas que deu origem ao HSBC. Portanto, o banco está de volta ao seu ninho. Desta vez, porém, o HSBC está enxovalhando todo o sistema bancário dos EUA com o qual o HSBC tem bilhões de dólares em transações interbancárias diárias.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Está confirmado: houve golpe no Paraguai

Argemiro Pertence

O artigo 17 da Constituição da República do Paraguai e seus incisos 7 e 8 são claros ao dispor:
“No processo penal, ou em quaisquer outros dos quais poderão resultar penas ou sanções, toda pessoa terá direito a:
-       Informação prévia e detalhada sobre a acusação, assim como deverá dispor de cópias, meios e prazos indispensáveis para a preparação de sua defesa com livre comunicação;
-       Que sejam apresentadas, controladas e impugnadas provas;”
Isto deixa claro que Fernando Lugo, o presidente paraguaio até 22 de junho passado, foi alvo de um golpe parlamentar, golpe este que desrespeitou até mesmo a Constituição Paraguaia, conforme a simples leitura do artigo 17 transcrito acima demonstra inequivocamente.  Todo o processo de cassação de um presidente constitucionalmente  eleito levou menos de 24 horas. Estabelecido este fato, o noticiário do país informa que atos de violência estão sendo praticados pelo “regime ilegítimo e golpista” de Federico Franco, vice-presidente que assumiu o cargo de presidente da República e atualmente adversário político de Fernando Lugo.

O golpe político de 21 e 22 de junho teve como causa um ato de violência ocorrido em Curuguaty, município do departamento paraguaio de Canindeyú, que resultou na morte de 17 pessoas, entre camponeses sem terra e policiais. Há claros sinais de que este incidente foi induzido pela oposição a Lugo e que integrou uma conspiração para desestabilizar o Poder Executivo. Lugo, o então presidente, imediatamente propôs a constituição de uma comissão especial de investigação do ocorrido com acompanhamento de organismos internacionais. Além da investigação, Lugo demitiu sumariamente o Ministro do Interior e o Chefe da Polícia Nacional, encarregados que eram de atuar preventivamente para evitar esse tipo de ocorrências. 

Entretanto, a primeira medida do governo que assumiu o poder, encabeçado por Federico Franco, o anterior vice-presidente, foi suspender o trabalho da comissão de investigação, o que faz surgir a suspeita em todo o país de que não há vontade por parte do novo governo de esclarecer aqueles fatos.
Em vista dos claros indícios de que o confronto entre sem terra e policiais foi induzido pela oposição a Lugo, e mais especificamente pelos grandes latifundiários que também faziam oposição ao governo Lugo, resta claro que o atual governo é um regime que guarda fortes laços com a violência. Frente a isso, Lugo e seus partidários têm feito, desde o início, apelos ao povo para que se conserve calmo e em paz, visando evitar provocações e violência. Entretanto, a Mesa do Senado até hoje não apresentou, após mais de vinte dias, nem ao presidente Fernando Lugo nem a seu aliado, o senador Filizola, o registro gravado das sessões e a sentença com as razões da destituição do presidente constitucional, apesar dos vários pedidos feitos neste sentido. Ou seja: faltam as provas, caracterizando outra violação à Constituição do país.
Ademais, os senadores Carlos Filizola e Sixto Pereira estão sofrendo ameaças por grupos de senadores golpistas com a suspensão de seus mandatos por terem se oposto a um julgamento político, mesmo estando claro que todo o processo foi viciado.
Estes são alguns dos verdadeiros fatos que clamam a opinião pública paraguaia e internacional, a todos os democratas da América Latina e do Paraguai, as instituições internacionais e regionais a não cederem na denúncia do processo ilegal que resultou na cassação de Fernando Lugo, visando evitar que novas violações dos princípios democráticos e da Constituição Paraguaia fiquem impunes.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Hollande eleito – a França volta a ser rebelde

A França volta a ter um governo sob controle do Partido Socialista após 17 anos, desde François Mitterand, com a eleição de François Hollande. Mitterand enfrentou grandes dificuldades ao ter que lidar com a inauguração e o avanço do neoliberalismo, representados por Margareth Thatcher, na vizinha Grã Bretanha, e Ronald Reagan do outro lado do Atlântico, nos EUA.
François Hollande vai ter de enfrentar a crise da Europa que, segundo os líderes liberais do continente, sob a batuta da alemã Angela Merkel, será resolvida com corte de gastos públicos.
         Ora, corte de gastos públicos representa um duro golpe no Estado de Bem-estar Social implantado na Europa Ocidental no período pós-Segunda Guerra Mundial. Já se fala em corte de aposentadorias, em ampliação do tempo de trabalho para se tornar candidato ao sistema de aposentadoria, na ampliação da jornada de trabalho onde ela foi encurtada (na França a jornada semanal de trabalho tem 35 horas), na redução do período de férias remuneradas e na eliminação ou redução de outros benefícios conquistados pela classe trabalhadora.
         No momento, os números do desemprego assustam, especialmente entre os mais jovens. Na Espanha, a taxa de desemprego entre os jovens já alcança 50%; na França, este mesmo número já alcança 25%, a mesma taxa de desemprego da Grande Crise de 1929 nos EUA. Números tão negativos ou mais graves ocorrem em Portugal, na Grécia, na Itália ou na Irlanda.
         A explicação para todo este problema tem sua raiz na crise do mercado hipotecário dos EUA que foi uma decorrência da crise imobiliária pela qual passou o país em 2008, e deu origem, por sua vez, a uma crise mais ampla, no mercado de crédito global. O principal segmento afetado, que deu origem ao atual estado de coisas, foi o de hipotecas chamadas de "subprime", que embutiam um risco maior de inadimplência.
         Os bancos nos EUA que ofereciam contratos de crédito aos que desejavam um financiamento imobiliário repassavam esses títulos de crédito a outros bancos dentro e fora do país (inclusive europeus) os quais, por sua vez, repassavam a outros bancos e assim por diante.
         O surgimento e o crescimento da inadimplência dos devedores iniciais deu origem a uma reação em cadeia e banco após banco foi entrando na zona de risco com uma clara ameaça de quebradeira ameaçando todo o sistema.
         Foi para salvar os bancos que os governos europeus e americano usaram recursos do orçamento público, gerando o déficit atual.
         Ora, a redução do déficit orçamentário pode ser alcançada de duas formas: com a redução das despesas (a opção dos liberais) ou com o crescimento da economia (como propõe François Hollande).
         Nos mesmos moldes de François Mitterand, François Hollande vai enfrentar uma Europa apática e submissa a um modelo único. Curiosamente, nos dois casos, as mentoras dessa apatia e submissão foi uma e é a outra duas mulheres: Margareth Thatcher e Angela Merkel. Felizmente a História já mostra que as teses da Senhora Thatcher foram um fracasso.
         Resumindo a questão crucial. Hollande é minoritário numa Europa unificada e predominantemente liberal. Todavia, a escolha dos franceses é clara: chega de liberalismo. Chega de pensar no dinheiro antes de pensar nas pessoas! Que se danem os bancos!
        


Egito e Grécia: duas culturas e duas incertezas

Autoridades encarregadas das eleições no Egito ainda não tornaram público o percentual de votantes, mas a imprensa egípcia calcula que a parcela de votantes deve se aproximar de 50%, o que é um número muito baixo para um país que sai de um longo regime autocrático. Mais de 50 milhões de egípcios estavam aptos a votar no primeiro turno das eleições.
Após o fim da votação, as campanhas dos principais candidatos publicaram pesquisas de boca de urna, como é natural. Nessas pesquisas, o líder é Mohammed Mursi, presidente do Partido Liberdade e Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana. Mohammed Mursi aparece com 28,2% dos votos e o ex-primeiro-ministro de Hosni Mubarak, Ahmed Shafiq, com 24%. Shafiq é encarado como opção para evitar que religiosos controlem o país e endureçam a legislação.
Esses números indicam que nenhum candidato terá mais de 50% dos votos válidos, o que levará à disputa de um segundo turno.
A possível vitória do candidato da Irmandade Muçulmana poderá levar ao cancelamento do tratado de paz entre Egito e Israel, uma vez que o mesmo “ofende a dignidade dos árabes e destrói os interesses do Egito e de outros estados árabes”. Este fato produzirá, certamente, um aumento do nível de tensões na região.
Por outro lado, a vitória do candidato do regime anterior trará pouca ou nenhuma alteração. Seguirá o Egito sendo um país subordinado aos interesses ocidentais, um país pobre e onde a corrupção viceja entre as elites.
Na Grécia, por sua vez, a questão é outra. O drama grego se situa em uma relação dívida/PIB (dívida total do país – pública + privada) próxima de140% e um déficit público da ordem de 8%. Do total desse déficit, somente 1,3% se relacionam ao déficit primário (receitas menos despesas). O restante  são juros e amortizações de empréstimos de grandes bancos internacionais que arriscaram, ganharam muito por algum tempo e não querem assumir que correram riscos como é o seu negócio. Os bancos arriscam e não admitem perder.
Esta falta de juízo se baseou na crença de que, ao fim das contas, a Grécia seria bancada pela União Européia ou pelo FMI. Mas não é bem assim. A um ganho maior corresponde um risco maior.
Como solução para a questão grega, o FMI, o Banco Central Europeu e os líderes políticos europeus mais influentes – Angela Merkel (Alemanha) e Nicolas Sarkozy (França) - receitaram a tal “austeridade” para a Grécia, como já o haviam feito para a Espanha, Portugal, Itália e outros.
Essa tal “austeridade” implica em corte de salários, redução de serviços públicos de educação, saúde, segurança e outros e, o que é pior, em mais desemprego. Por que não propor o caminho inverso, o do crescimento? Crescimento resulta aquecimento da economia,  em aumento da arrecadação de tributos, em desenvolvimento e em mais empregos. A explicação para a opção pela “austeridade” são os dogmáticos princípios neoliberais que já provaram sua ineficácia e inutilidade em outras praças.
A questão evoluiu para um outro ponto. Hoje se discute se a Grécia deve ou não permanecer na chamada “zona do Euro”. Ou melhor: hoje não interessa aos países líderes dessa “zona” que a Grécia saia dela. A saída da Grécia resultaria em um aumento da incerteza e da descrença na moeda européia, já que há, pelo menos, mais 4 ou 5 países caminhando pela beira do mesmo abismo por onde caminhou a Grécia. Fica uma questão a ser respondida: foi acertada a implantação de uma moeda  única em países com realidades sociais, econômicas, financeiras e cambiais tão diversas?
Há ainda a hipótese de que seja eleita, no próximo mês, uma coligação de esquerda autêntica para o governo grego. Neste caso, a tal “austeridade” seria inteiramente descartada, passando o governo grego a privilegiar as questões sociais em lugar dos interesses dos banqueiros. Neste caso, caberia à Grécia tomar a iniciativa de sair da “zona do Euro”.
Um fato, porém, é óbvio e certo: não pode o povo grego pagar pela ganância dos banqueiros e pelo descontrole governamental.